Tempos de crise são sempre inspiração para Rodrigo Lima e seus comparsas do DEAD FISH gravarem um bom disco. Depois de lançar o lento “Um Homem Só”, a banda volta com força total com o novo CD batizado de “Contra Todos”, que vem bem temperado com pitadas do som juvenil registrado nos consagrados “Sirva-se”e “Sonho Médio”, e acrescido ainda da experiência de vida dos já tiozinhos ‘Deadfishes’ atuais. Para deixar essa fase bem registrada, fizemos uma das entrevistas mais completas com a banda. A idéia foi simples: convidamos amigos em comum e propomos que cada um fizesse algumas perguntas sagazes para Rodrigo. Temas como major, troca de integrantes, a volta ao underground, venda de ingressos entre outros, resultaram em uma looonga entrevista, feita especialmente para os fãs. Então prepare-se e leia já, pois agora é Dead Fish Contra Todos!
Por Dario (Valepunk) :
E aí Rodrigo! Qual a diferença do novo disco “Contra Todos” em relação aos trabalhos já lançados pelo Dead Fish? Em sua opinião, o novo CD se parece com algum deles?
Como estou sempre muito envolvido nos trabalhos acredito que meu senso crítico fica meio envolvido demais. O que te posso dizer é que este talvez seja o trampo do Dead Fish que tenha mais orgulho até agora, por ser o último, claro, e por ser o que mais gostei de fazer e ouvir até hoje.
Já andaram dizendo por aí que é um "Sonho Médio" mais moderno, o que não acho tão justo de ser dito, mas talvez seja tão ou mais espontâneo que o SM.
Por Dario (Valepunk) :
E de onde veio a inspiração para batizar o novo disco de "Contra Todos"? Quais são as temáticas das letras do álbum?
Esta música como eu disse, fiz pra minha esposa, numa linda manhã de primavera em SP, em que encontramos um mendigo morto na porta de casa. Calhou de se tornar o título. Acho que a letra fecha a idéia, que nem tem intenção de ser coesa, de forma boa.
As letras são mais diretas do que as do "Um homem só", que tinha outra idéia tanto musicalmente como conceitualmente.
Acredito que é a minha velha forma de me expressar com letras políticas de sempre.
Por Mozine (Laja Records):
Eu também ouvi uns comentários em off de que este disco seria algo mais próximo do “Sonho Médio”, que é na minha opinião e de muitos fãs, o melhor disco do Dead Fish. Realmente existiu essa intenção de buscar essas raízes ou o que saiu foi de forma natural?
Fala Mozi. Na real nunca quis perder esta essência que você fala aí, sempre quisemos implementar o bagulho, nem sempre deu certo. O "Um homem só" foi uma tentativa musical de fazer algo diferente, que a meu ver não deu certo. Neste, a gente deixou fluir, tinha o estúdio do Nô, o Hellno e começamos ensaiando só nós 3, Aly, Nô e eu. Eram sessões sem horário e divertidas, foram saindo coisas, como acho que foi o "Sonho médio" em 99. No fim acredito que nos aproximamos do SM mais por isso.
Por Mozine (Laja Records):
Musicalmente, senti uma mudança principalmente na parte de guitarras, se comparado ao “Um Homem Só”. Por quê? Deve-se ao fato de estarem com apenas um guitarrista agora, ou realmente houve uma reflexão e resolveram mudar de forma pensada as guitarras?
Racionalmente eu queria fazer um cd completamente diferente do "UHS", não gosto do desenrolar da historia deste cd, mas isso não foi dito nos ensaios, sabíamos que tinha que ser algo que saísse com naturalidade.
Por sermos um quarteto acho que este cd faz uma diferença boa do último sim. Ganhamos em peso e o Phil pode viajar mais nas guitarras loucas dele.
Por Mozine (Laja Records):
A banda vai adotar definitivamente a formação com só um guitarrista? Houve alguma dificuldade para adaptação?
Por mim sim, gosto mais assim, devíamos ter feito isso logo em 2004.
O Phil é um monstrengo tocando, pegou as guitarras muito rápido, algumas não rola porque são arranjos em cima de uma outra guitarra.
Se um dia o Phil disser que precisa de outra pessoa junto dele aceitaremos na boa, mas eu gosto bem mais do jeito que está.
Por Dario (Valepunk) :
Após assistir um show com a nova formação do Dead Fish, com apenas uma guitarra, percebi que o instrumental ficou mais 'paulera'. Porém, não há como negar que uma segunda guitarra faz falta no grupo, tanto que algumas músicas nem estão sendo mais executadas nos shows devido a isso. Há planos de o Dead Fish inserir um novo guitarrista em sua formação?
Por hora não, só se o Phil quiser, aí vamos achar alguém.
Por Dario (Valepunk) :
Rodrigo, com a atual crise fonográfica está cada vez mais difícil lançar um CD no mercado e, infelizmente, esse problema também se reflete nas gravadoras majors. Quais métodos vocês utilizarão para divulgar o novo disco, "Contra Todos"? Além da versão física, há cogitação do disco sair em outros formatos?
Sim, utilizaremos o máximo de recursos de divulgação que tivermos a mão.
Por Felipe (Ideal Shop / Ideal Records):
“Não tente nos parar” é o refrão da música “Asfalto”, que está no “Contra Todos”. Para quem ou o quê foi esta letra? Eu interpretei como um duplo sentido bem sagaz, uma mistura de emocional (para não dizer emo) com político... Viajei?
Nem sei se viajou, a não ser que esteja tentando me chamar de emo nas entrelinhas, na subjetividade entende?
Todas as músicas do cd têm sentimentos individuais, com um fraseado politizado. Foi como saiu, não consigo mais acreditar em nada a não ser em mim e em você, e olhe lá se vou acreditar em você mesmo.
A música tinha o nome em alemão "ausfhart" (é saída em alemão, está em todo lugar nas estradas de lá, nem sei se escrevi certo), depois virou "asfalto". Fala sobre a estrada, onde sempre estivemos. Na estrada não tem ideologia, não tem regra nem dogma, é viver um dia de cada vez sem esperar muita coisa, e esta foi a minha, nossa, escolha: aprender sem regra, e me sinto orgulhoso de estar por ai ainda fazendo o que quero, porque quando olho pra trás vejo muita gente que ficou pelo caminho, muita gente que se apegou a alguma regra e ficou na beira da estrada reclamando.
O mais difícil foi cantar no estúdio, sempre me dava um nó na garganta porque me lembrava do Nô.
Por Felipe (Ideal Shop / Ideal Records):
Sinto a vontade da banda de voltar para o cenário e para o público underground. Até na Verdurada vocês tocaram recentemente, e também afirmam que o “Contra Todos” é um disco rápido, na linha do “Sonho Médio”... Rolou um arrependimento de apostar no grande esquema? Foi uma $olução para as conta$ do fim do mê$?
Não estamos de volta ao underground, esta parece uma afirmação meio vazia. Sempre estivemos aí, nunca deixamos de tocar em lugares que sempre tocamos, e depende também do que você interpreta como "underground" ou "cena independente". Se isso significar que voltamos a tomar cano não estamos de volta a porra de underground nenhum, apenas estamos fazendo o que nunca deveríamos ter deixado de fazer, que é tomar conta do que é nosso.
Por Francesco (F Records):
Rodrigo, nos últimos dois anos o Dead Fish tomou a decisão de não mais participar de festivais e/ou eventos nos quais bandas de abertura e/ou participantes são "obrigadas" a vender uma determinada quantidade de ingressos ou pagar uma determinada quantia para poder participar dos mesmos. Quais os motivos que levaram a banda e esta decisão e qual sua opinião sobre este tipo de procedimento que parece que ficou bem comum nos dias de hoje.
Vamos por partes Fran, algo precisa ser explicado e bem explicado ai. Deve ter algum garoto que já fez isso lendo esta entrevista e queria que entendesse o porquê desta nossa decisão.
Primeiro veio pangéa! hahaha. Brincadeira a parte, isso aqui vai ficar um livro.
A gente no meio dos anos 90 se comunicava por carta com todas as pesoas do Brasil, marcavamos nossos shows com amigos e conhecidos de carta, raramente nos falavamos por telefone ou coisa parecida, era tudo na confiança mesmo. Por exemplo, o Wolney e o Tristão tinham o Dreadfull em BH e já nos conheciamos e tinhamos uma relação legal, eles marcavam um show pra eles na cidade deles e nos convidavam pra tocar junto, normalmente eles faziam tudo, agilizavam o som, vendiam os ingressos e separavam parte da grana pra pagar nossos custos de ida e volta de BH pra Vitória e vice versa a gente no ES. Assim começou tudo pra gente, era tocar com os amigos, trocar figurinha sobre o que rolava, conhecer pessoas e bandas que só conheciamos por carta e assim a gente foi construindo tudo, tijolo por tijolo.
Com o tempo fomos ficando conhecidos e começamos a organizar tours maiores e com um número mínimo de shows pra pagar a Van e viver na estrada. Esta foi a evolução e ainda, mas nem sempre, com amigos e conhecidos que nós confiavamos muito, tudo isso rolou por 10 anos acredito. Veio o Hangar 110 em SP, tinha o pico da rua Ceará no Rio o Garage, o Bar do Meio em Curitiba, o Caverna e o Butecario em BH, alguns picos em Brasília, Goiânia, Porto Alegre, Vitória o Camburí Clube em Vila Velha o Bar do Rone, enfim todas as cidades que tinhamos contato tinham o seu lugarzinho pequeno ou médio pras bandas locais tocarem e fazerem suas próprias aprensentações, mostrarem seus zines e venderem seus merchs. As coisas foram indo se "profissionalizando", tudo na base da confiança, eramos na medida do possível unidos e as bandas e estilos se misturavam numa boa, sem treta, ou quase sem treta, nunca tiravamos um tostão do bolso pra tocar com fulano ou cicrano, tinhamos os custos das viagens que na medida do possível eram cobertos pelos shows que fazíamos.
Bom, este é um breve relato, é claro que nada era um paraiso, tudo era mais complicado, de alugar um amplificador a achar um lugar pra fazer um show pra mais de 200 pessoas.
Hoje as coisas são aparentemente mais fáceis, todo mundo pode se comunicar com facilidade existem mais bandas e lugares pra tocar que durante todos os anos que tenho uma banda. Qualquer banda hoje tem um myspace, um orkut ou coisa parecida e pode fazer o próprio show na própria vizinhança, e mais, tem muito mais acesso a equipamento também, tudo é mais tranquilo.
Mas de 2002 pra cá umas distorções começaram a aparecer, veio outra geração, que a meu ver colhe parte do esforço da minha geração que se matou pra que algum cenário acontecesse, e joga tudo pro alto, se submetendo a pagar pra tocar com uma banda "maior" porque pode ser mais vista. Isso pra mim é patético, ultrajante, imbecíl. Nego encarando a própria banda como um produto, pra ser vendido assim sem auto-estima nenhuma, baratinho, se joga na mão de quem pode "alavancar" a banda. Isso era tudo que não queriamos quando entramos nesta, queriamos fazer nossos próprios shows, tomar conta da parada, se auto-produzir, fazer algo girar bem diferente do que rolava no "mainstream" daquele tempo, fazer algo acontecer mesmo mas com nossa própria idéia. Claro, como disse, nem sempre foi como queriamos, ou quase nunca, aqui é a Brazaland o problema é mais embaixo, mas tinhamos algo, nego mais velho não acha isso, mas tivemos e temos algo que é poder de escolha, uma rede de conhecimento que está acabando porque a molecada achou um caminho "mais fácil". E digo mais, tudo que levou 20 ou 25 anos pra ser construído vai acabar em menos de 5 porque se tornou descartável como ouvir uma banda na internet. Tudo vai ficar difícil pra todo mundo, porque estão jogando na mão de uma meia duzia de "espertos" um Know how que é nosso, de todas as bandas, engajadas ou não.
Já disseram pro Aly quando ele foi reclamar desta situação, que constragedoramente já vivemos algumas vezes, que não tocar em festivais assim hoje em dia seria um "suicídio musical", estariamos jogando no lixo todo o "nome" que adquirimos com esforço de uma década e meia, não conseguiriamos mais viver de banda porque "hoje é assim". Pois eu digo então que se foda! . Não joguei no lixo uma porra de diploma de Direito, pra viver tudo que não queria sendo advogado no ES. Ter que aguentar "donos de cenas" dizendo o que devo fazer ou quanto devo pagar pra tocar com o meu herói do momento, foda-se isso! Estou velho, mas não estou morto. Sempre fizemos do nosso jeito, já fomos questionados em nossa postura como banda independente, mas nunca em nossa honestidade, e isso é praticamente pactuar com roubar os garotos, dar um foco de banco pra porra toda, e com isso eu não concordo nem minha banda e algumas bandas de amigos, prefiro morrer seco... E acho que isso já esta acontecendo hahahahahaha!
Sabemos que tem uma rapeize que nem devia estar lendo isso, que sabe que sucesso não é o fim do bagulho, é conseqüência. Se rolar bem, se não, que se foda, a gente aprende muito na estrada e no meio da música mesmo, nunca é em vão, dai sai um monte de escritor bom, um monte de produtor massa, artista plástico, pintor, designer, até advogados. Saem pessoas melhores mesmo, que podem fazer a diferença neste mundo tão bunda mole, pode ter certeza. Eu sempre digo que o que vivi é bem melhor do que o que vivi na faculdade e tenho certeza que se não tivesse vivido tudo que vivi não seria este sujeitinho perfeito aqui hehehehehe.
Bom teria mais pra escrever, mas já falei demais, fica pra uma outra pergunta ai.
Por Marcelo Viegas (Revista CemporcentoSKATE / Zinismo):
Rodrigo, a finalização do disco novo coincidiu com a notícia da saída do Nô da banda. A bateria já estava gravada quando isso ocorreu? E como tem sido essa nova fase, com o Marcão na banda?
Antes de gravar já tivemos a conversa com o Nô, ele sabia durante a gravação de tudo. Claro que como foi ele que ajudou a fazer o trampo nada mais justo do que ele gravar.
Já conhecíamos o Marcão de longa data e foi uma escolha por uma pessoa que entendia o nosso esquema. Fizemos 2 shows até agora e alguns ensaios, já deu pra sentir que deu liga logo no primeiro ensaio. Vamos ver a estrada agora.
Por Mozine (Laja Records):
Por que optaram pelo Nô gravar as baterias, mesmo já sendo sabido que ele deixaria a banda?
Foi um pedido dele e um desejo nosso. Um clima muito de merda no Mega aqui em SP, mas foi bom ver o cara gravando o bagulho com raiva, dava até medo.
Por Mozine (Laja Records):
O que o novo baterista mudou na banda, e qual é sensação nos novos shows com a nova formação?
O Marcão é mais metaleiro, é um relógio também, isso ficou patente de diferença entre ele e o Nô. Nos ensaios pedimos pra ele desacelerar algumas músicas se não vira grind.
Nos shows ainda sinto umas dores de barriga quando olho pra trás, não posso cuspir hehehe. Mas a vibe dos shows tem sido boa, o Marcão parece estar amarradão.
Por Felipe (Ideal Shop / Ideal Records):
Já não cabem mais nos dedos quantos “músicos” passaram pelo Dead Fish, porém o cantor/frontman da banda sempre foi o mesmo.
Rodrigo, você se acha um guerreiro por estar todos esses anos nesse barco ou então é mais um cara difícil de conviver?
Acho que mais um cara difícil de conviver do que guerreiro. Eu sou sempre o primeiro a dizer "chega desta merda, pra mim basta!", e nunca vi o Alyand falando isso, acho que o Nô também nunca disse...
Mas veja bem, veja bem... Ser difícil de conviver pode ser um grande mérito neste país de merda onde vivemos e onde tudo pode, tudo é tolerável. Meu limite para a barbaridade tida como comum aqui só é menor, só isso. Me acho extremamente simpático pra caralho! Pode perguntar ai pro, pro, pro... Pode perguntar que vão confirmar, sou uma simpatia! Meus amigos me adoram!
Por Mozine (Laja Records):
Como você avalia as fortes mudanças sofridas pelo mercado fonográfico? Aponte alguns caminhos que o Dead Fish tem usado.
Tá tudo uma merda né? Mas no meio desta merda toda conseguimos fazer o nosso do nosso jeito. Temos usado muito a net, contratantes conhecidos e tudo mais, tem sido tranquilo.
Por Fernanda Alcantara(PUNKnet):
Rodrigão, hoje na internet temos todos os tipos de redes sociais e é claro, as musicais não poderiam estar de fora. Um bom exemplo é o last.fm, que disponibiliza rádio/downloads de músicas dos artistas (de acordo com a devida autorização) e artistas/bandas similares. Qual a sua visão sobre essas redes? Há diferença de ponto de vista entre Rodrigo músico para Rodrigo apreciador musical?
Basicamente nenhuma diferença, acho que se tenho acesso como apreciador tenho oportunidade de melhorar como músico, uma coisa ajuda a outra é uma engrenagem mesmo, se formos ver a grosso modo.
A last.fm eu gosto porque está ali com consentimento de todos e tem uma onda legal que é aproximar as pessoas com afinidades em comum.
Pra ser sincero sempre chego meio atrasado nestas inovações internéticas, sempre tive uma relação meio de amor e ódio com o mundo virtual, prefiro receber indicações de amigos do que vale e do que não vale a pena pra eles, este acaba sendo meu filtro.
É um puta mérito da internet tornar as coisas mais democráticas e aproximar pessoas, mas ao mesmo tempo penso que isso acaba tirando as pessoas da "vida real" se é que se pode dizer assim, todos estão sempre muito bem informados mas, ao meu ver, sempre com um certo receio de botar a cara no mundo mesmo, fazer um show, encontrar gente que não seja da sua "tribo" ou de sentir a realidade de onde pertence. Isso acaba criando umas distorções locais, todo mundo pode ser bastante cool e descolado na web, mas quando abre a porta de casa no interior de qualquer lugar ou até em SP mesmo, acaba sendo só o "puuta cara entendido da cena de Glasgow", se veste como lá, até fala com o sotaque de lá, e acho que isso não acrescenta pra um diálogo com a realidade local e as coisas acabam se segmentando entende? Acho foda a gente saber o que rola em todos os lugares do mundo, mas é preciso trazer pra nossa realidade, trabalhar internamente, ver em que nível diálogo podemos chegar, e isso a internet não conseguiu fazer ainda no Brasil musicalmente falando.
Com raros exemplos contrários ai, porque me ocorre agora o Mozine e a Läja em Vila Velha que acredito que aproxime, do jeito dele, o mundo da realidade deles e o povo da ABRAFIN que acaba fazendo as realidades se misturarem de uma forma legal, com ou sem acusação de tchurminha.
Por Felipe (Ideal Shop / Ideal Records):
Em um vídeo do YouTube (http://br.youtube.com/watch?v=do9GMLtCg1M) dá pra perceber um plágio feito pela banda NxZero em cima de uma música do Dead Fish. Você se sente honrado por tal feito e encara como uma homenagem? E o que você acha dessa banda?
Eles são garotos simpáticos, conheço mais o batera, daqui da vizinhança. Parece um cara gente fina, minha esposa fala que o vocalista é bonito e isso me deixa ligeiramente bolado, mas nada que vá me tirar uma noite de sono. A banda não me agrada, não gosto de nada da música deles.
Ser plagiado nunca é legal, mas nem tenho isso como um insulto não, pra mim foi engraçado quando vi. É a intro do som né? Na real nem gosto da nossa música que eles copiaram a intro, então beleza.
Já me disseram que eles plagiaram uma banda gringa aí também, mas só ouvi falar, nem gosto de ficar perdendo meu tempo indo atrás de umas paradas destas.
Por Eduardo Boka (Zinismo):
Quando a banda começou, nos primeiros concertos, primeiros perreios, primeiros aprendizados com erros enfiados goela abaixo, totalmente cabaça de tudo, como toda boa banda de hardcore, existia a idéia na mente que poderiam hoje ser considerada uma das bandas mais importantes do hardcore do terceiro mundo? O que seria conselho para alguém que começa numa banda hoje em dia?
Não na minha cabeça, a gente sempre teve como centro fazer algo que pareça conosco, com o nosso momento, ser reconhecido como isso ou aquilo nem foi nem é nossa intenção. A gente sabe que na América do Sul a grama do vizinho sempre é mais verde, o que na verdade é mesmo, também não temos capacidade de criar a mitologia que existe lá fora aqui. Apenas queremos ter condições de continuar produzindo e vivendo da merda toda, e isso já é pedir muito.
Dar conselho nunca é bom, cada geração tem sua urgência, seus focos. Mas seria legal que nego aprendesse um pouco com os velhos que fizeram alguma coisa, pelo menos ouvissem um pouco pras coisas não virarem um mantra de erros.
Existe o outro lado da moeda também, que se nego ficar ouvindo demais este bando de velho frustrado acabem não fazendo nada do jeito deles e assim vira Europa né? Cultura = Tradição = povo morto, e a gente entrou nessa de punk rock e hardcore pra fazer alguma diferença né?
Enfim, quem está começando pelo menos pode ter uma certeza, que vai se foder muito durante um bom tempo e vai ser testado da pior forma todo dia. Fica quem gosta muito da parada, ou é muito masoquista safado.
Por Mozine (Laja Records):
Posso estar enganado, mas em minha opinião o Dead Fish foi a primeira banda brasileira a fazer hardcore melódico em português, e fez isso ficar bom e com conteúdo. Brinca-se, na maldade verdadeira, que a culpa de termos tantas bandas horríveis de hardcore melódico no Brasil, cantando horrivelmente em português, é do Dead Fish?
Eu nem acredito em Deus pra acreditar em culpa, portanto pra mim nem é tão relevante assim esta hardcoriana cristã acusação. Não sei se acho todo meu conteúdo letrístico em português o melhor do mundo, então nem posso dizer que não é nossa culpa. Enfim, fizemos uma opção lá atrás em 93 que foi comemorada por muita gente (tentem achar algum zine ai de 93 ou 94 que vai estar lá), e que internamente gostamos até hoje, o que se desenrolou depois já não é nossa responsabilidade. Eu nem gosto de interpretar letras das minhas músicas porque quem ouve fica limitado na interpretação. Trocando em miúdos acho esta afirmação a mesma coisa que botar a culpa no Judas Priest ou no Slayer por alguns assassinos ou suicidas fazerem suas merdas ouvindo a banda, é bem patético.
Normalmente o que é da raiz é melhor, acho que começamos uma parada, na real nem sei se começamos nós mesmos, e gostamos do que fizemos e é só isso. Como dizia o Nô, que me ensinou a interpretar sentimentos por trás de palavras, "Isso é porque chegamos até aqui, fazendo o que queríamos e só isso". Vou sentir falta da capacidade dele de interpretar a burrice humana.
Por Felipe (Ideal Shop / Ideal Records):
Se não me engano desde que te conheço você comenta coisas como “Ano que vem vou embora do Brasil” ou “Em 2010 o Dead Fish vai acabar”... Existem mesmo essas possibilidades?
Hahahaha sim, sempre existe. Acho meio tarde pra tentar algo fora do Brasil que não seja estudar, e estudar na faculdade com professor cuzão, chato e vaidoso eu não quero mais.
Por Mozine (Laja Records):
Já tem um bom tempo que os integrantes do DF estão vivendo profissionalmente com a banda em SP. Como foi essa mudança do ES pra SP, a parte de adaptação de vocês, das famílias... Quais foram as maiores dificuldades encontradas e como avaliam nos dias de hoje essa mudança?
As dificuldades existem até hoje Mozi. A família do Aly veio com ele e parece adaptada à cidade. Os filhos estudam perto de casa, mas é uma cidade onde tudo é grana, bem diferente do ES, as vezes o cara passa umas dificuldades com dois filhos aqui. O Nô formou família aqui, teve uma filha aqui e acredito que é o mais adaptado de todos nós. O Phil acaba de se separar, tem uma filhinha e a vida dele acho que sempre foi mais sossegada, ele sempre trabalhou por fora da banda, e a mulher dele conseguiu um trampo bom rápido. Eu aonde cheguei fiquei. Faz 5 anos que moro no centro da cidade e tenho uma boa relação com a merda toda aqui. Procurei evitar trabalhos paralelos e viver o máximo possível de banda, o que nem sempre é a melhor escolha, mas eu resisto bem. A minha esposa gosta daqui, mas por ela voltaríamos pro ES. Acho que a do Aly também gostaria de voltar. Enfim, fizemos o que queríamos e pagamos o preço, pra mim normal, mas nem sempre é fácil.
Por Felipe (Ideal Shop / Ideal Records):
Obama ou Osama?
Cara, Obama nego... Digo, nego pra você não pra ele, apesar de ele ser saca? Só uma expressão que uso sempre.
Eu quero ver o que ele pode fazer com o país na merda do jeito que o Bush deixou, nem boto muita fé. Mas confesso que o povo americano deu show de capacidade de fazer diferente. O cara se elegeu na primeira tentativa, tudo bem era o Bush até meu gato se fosse candidato ganhava, mas ele se elegeu de primeira e com uma proposta completamente diferente da que eles viveram os últimos 8 anos, e mais, era um pais assumidamente segregacionista a menos de 40 anos, achei show de bola, sem falar que ele se chama Hussein, ou seja, superaram milhões de traumas.
Eu queria ver aqui, se chegasse um negão que é a favor da legalização do aborto, com nome de argentino tipo Juan ou Maradona, pra ser presidente se ele ia ser eleito, somos um povo conservador e miserável, o que não combina. Quantas vezes o Lula tentou ser presidente? Nem me lembro mais. Se ele tivesse sido eleito na primeira vez que seria do caralho.
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